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HOMILIA DE ENCERRAMENTO DA 11ª ROMARIA DA TERRA E DA ÁGUA DO PIAUÍ
Amados, amadas de Deus, romeiros e romeiras de São Raimundo Nonato,
Teresina, Parnaíba, Campo Maior, Floriano, Picos, Oeiras, Bom Jesus,
Tenho
Sede!
Vivo este momento com uma dose muito grande de humildade e de
responsabilidade. Faço esta homilia como uma missão, como de resto
tudo o que faço. Porque, ao que me pareceria normal seria missão de
Dom Sérgio, nosso arcebispo que preside esta celebração, ou ao
menos, de dom Ramón, bispo desta Diocese. Mas, como afirmei, encaro
este momento como uma missão.
Não
me parece ser capricho e nem ironia do destino, mas parte do
desígnio divino, o fato de todos os povos, todas as culturas, todas
as gerações terem os seus êxodos. Desde o nosso nascimento natural,
quando se rompe a bolsa que nos acolheu no ventre da nossa mãe;
desde o nosso batismo que nos lava das manchas do pecado original;
passando por todas as fases das nossas existências, até a nossa
morte também natural, vivemos uma espécie de êxodo existencial. Se
todos os povos tem seus êxodos, suas saídas da terra da escravidão
para a terra da libertação, podemos afirmar, sem medo de errar, que
o êxodo é uma parábola da existência humana.
A
experiência do êxodo é uma experiência pascal: a passagem do velho
para o novo, do pecado para a graça, da escravidão para a liberdade.
Todos os êxodos tem uma tonalidade pascal. Todos os êxodos tem os
seus divisores de água. Por eles passamos ou passaremos pelo mar
vermelho ou pelo mar também vermelho do sangue derramado por Jesus
no calvário e na cruz. Ainda mais, nós que nascemos neste país
continental chamado Brasil que traz visivelmente as reminiscências e
as marcas dos êxodos dos negros nos navios negreiros da história.
Basta olhar para nossas cores, nossas peles, nossas raças, nossas
sortes, nossas situações. Só não podemos dizer o que disseram dos
índios no inicio da colonização: “somos escravos por
natureza”.
Talvez nem devêssemos falar de êxodo, de saída, de peregrinação e de
romaria, mas de missão. Deus ao criar um povo, cria um povo
peregrino, romeiro, itinerante, missionário. Cria, chama, liberta e
envia em missão. Nossa romaria não poderia ser de outro tipo a não
ser uma romaria missionária: romaria missão, diria! Os grandes
personagens da bíblia não são apenas modelos de pessoas chamadas e
vocacionadas, mas também são exemplos de missionários: Abraão,
Moisés, Pedro, Paulo Jesus...
O
contexto celebrativo de hoje move-se no espaço de êxodo e de deserto
como buscas do sentido da vida. O povo no êxodo da primeira leitura
busca o sentido da vida reclamando por pão, água, moradia, terra
para morar, sentido para viver. O povo no evangelho busca Jesus como
pão para a sua vida. Jesus orienta a este povo a buscar o pão que dá
sentido verdadeiro à vida no deserto e no êxodo.
A
imagem do povo que aparece nas leituras de hoje é a de um povo
insatisfeito com a sua realidade, faminto e insaciável em sua fome e
sede, desorientado em saber o porquê da sua travessia; é a imagem de
um povo que desafia a realidade, a Moisés, a Deus e a Jesus; é
também a imagem de um povo que tem memória parca, fraca, apagada,
sem paciência histórica. É o retrato de um povo preso à busca do
pão material, sem abertura ao transcendente, muito parecida com a
imagem do homem/mulher de hoje na busca do imediato, do mais
prazeroso, do descartável e do contingente.
Por
isso, a liturgia de hoje, vem em socorro destas nossas fragilidades,
ao falar-nos dos sinais da passagem do mar vermelho pelo povo da
primeira aliança; ao falar-nos dos sinais da multiplicação dos pães,
na passagem de Jesus para a outra margem do lago de Tiberíades; ao
falar-nos dos sinais da nossa passagem por esta bela e santa Romaria
da Terra e da Água do Piauí. A vida é uma eterna romaria, em busca
do sentido para esta vida.
A
viagem, a travessia, a romaria e a peregrinação entre o Egito e a
terra prometida, a origem e o destino, o ponto de partida (a
escravidão) e o ponto de chegada (a libertação), entre o Piauí,
passando por Corrente, e o “sul maravilha” tem várias etapas.
Vejamos algumas destas etapas:
A
primeira etapa desta viagem romeira se encontra na primeira leitura:
ela descreve as privações de água, comida, liberdade e o surgimento
dos conflitos sociais, normais para um lugar como o deserto. A Deus
é feita a pergunta: “O Senhor está ou não está no meio de
nós?” Na dialética da narrativa desta primeira leitura, a
resposta a esta pergunta está na água achada na rocha que, segundo
Paulo, a rocha era Jesus (1Cor 10,4). A nossa resposta não pode ser
outra que esta: “sim, meu povo, o Senhor está aqui e agora. E
este Senhor é Jesus Cristo”.
A
segunda etapa desta viagem romeira se encontra o salmo:
o salmista, por outro lado, não fala como um historiador, um
filósofo, um sociólogo, mas como um liturgo. Faz o contraponto, o
contracanto, ao pedir ao povo que não se esqueça que Deus o
alimentou na travessia do deserto. Um fato desta natureza não pode
ser simplesmente esquecido, mas recordado, rememorizado e guardado
no recôndito do coração, perpetuado de geração em geração.
A
terceira etapa desta viagem está na segunda leitura:
segundo Paulo o cristão não pode se comparar a um pagão. O
cristianismo não é um paganismo melhorado. O cristão tem que se
despir do homem velho e se revestir do homem novo, renovado pelo
Espírito. Com o ser cristão acaba a era da “caducidade”, da
“caduquice”, da escravidão. O homem novo não é aquele que tomou
elixir de longa vida e nem quem encontrou ou acertou o caminho e
tomou remédios da eterna juventude. O homem novo, a mulher nova, é
aquele e aquela que adere pela fé e pelas obras a Jesus Cristo, o
homem novo por excelência.
A
quarta etapa está no evangelho:
no evangelho a pergunta agora é endereçada a Jesus: “Senhor,
como chegastes aqui?” Meu povo, Jesus chega sempre primeiro
do que nós, em quaisquer lugar e situações! Ele está aqui no meio de
nós como peregrino, romeiro, cortador de cana... Jesus, Mestre e
Senhor, Educador e Diretor Espiritual orienta o povo a esforçar-se
não só pelo pão que se perde e que acaba, mas pelo pão que dura e
alimenta para a vida eterna. Jesus, no evangelho de hoje, nos diz
que o pão mais importante não é o pão que só sustenta o corpo, mas o
pão que sustenta o espírito. O pão somente material envelhece caduca
e apodrece. O pão da fé é duradouro, eterno e leva à vida eterna. A
liturgia de hoje, caros irmãos, caras irmãs, quer nos convencer que
precisamos sempre mais de Jesus, que Ele é imprescindível para nós.
Ele é o nosso guia, nosso pão de cada dia; só por Ele, com Ele e
nele podemos viver. “Aonde iremos nós, Senhor? Só tu tens palavras
de vida eterna”!
É
evidente que há uma quinta etapa nesta viagem romeira, a nossa parte
nesta parábola da humanidade:
como muitas vezes é a nossa, a reação da multidão diante da
multiplicação dos pães é deludente. A multidão segue a Jesus mais
por curiosidade, ou por egoísmo, porque comeu pão de graça. Para
Jesus é preciso dar um novo sentido à vida, para além das panelas de
carne, do pão que acaba, que cria mofo, apodrece, adoece, mata. O
valor e o sentido que alimentam a vida são outros: a fé, o amor, a
esperança, a paz, a solidariedade globalizada, “a caridade na
verdade”, para usar uma expressão do papa Bento XVI na sua última
encíclica.
É
evidente que hoje há uma supervalorização dos bens materiais. Por
eles pode-se pisar, passar por cima das pessoas, das leis, das
regras e das normas de convivência; por eles pode-se fazer os outros
migrarem, escravizá-los sem nenhum peso de consciência. Paulo nos
orienta a nos despojarmos desta mentalidade e a revestirmos nossa
vida de um novo vida.
A
pergunta feita a Jesus, agora se remete a nós: que obra devemos
fazer? A obra da fé: a fé com obra, juntas, fé e vida, vida e
fé. Para seguir Jesus é preciso ser peregrino da fé, migrar,
deslocar-se para o outro lado do mar. É preciso se deslocar,
peregrinar, ser romeiro, sair da casa da servidão, da manipulação e
das novas formas de escravidão que deixam caídos à beira da estrada
da vida tantos irmãos e irmãs nossos.
Alguém já perguntou se migração tem muros ou pontes? Não é
construindo muros de separação racial que vamos acabar com a
migração e sim construindo pontes de dignidades. Jesus não foi
pedreiro: construtor de muros que separam as pessoas, foi, ao
contrário, carpinteiro: construtor de pontes, portas e janelas para
as pessoas se comunicarem. Ao lado do sagrado direito de migrar, a
pergunta que não pode calar dentro de nós é esta: por que somos
obrigados a sair de nossa terra?
Estamos aqui, em romaria, dando um novo sentido a este modelo de
vida ensinado por Jesus. Por conta da migração forçada e do trabalho
escravo ficamos sem família, sem comunidade, sem liberdade, sem
cidadania e consequentemente, sem vida. Primeiro eles tiram nossa
famílias e nos tiram de nossas terras, depois tiram a nossa
liberdade e a nossa cidadania.
Eis,
pois, alguns dados ilustrativos:
A
assinatura da lei áurea, em 13 de maio de 1888, representou o fim do
direito de propriedade de uma pessoa sobre a outra, acabando com a
possibilidade de possuir legalmente um escravo no Brasil. No
entanto, passado tantos anos, ainda na atualidade, persistem
situações análogas ao trabalho escravo: fazendeiros, usineiros,
madeireiros, siderúrgicos, pecuaristas, aliciadores, gatos, homens
dos agronegócios e similares continuam desafiando as leis, vivendo
na ilegalidade, fazendo dos pobres seus escravos. A Convenção nº 29
da OIT de 1930, define sob caráter de lei internacional o trabalho
forçado como “todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa
sob a ameaça de sanção e para a qual não se tenha oferecido
espontaneamente”. A escravidão simplesmente é uma força de
trabalho forçado. E a migração forçada é uma forma de trabalho
escravo porque a pessoa não se oferece espontaneamente para
trabalhar, nem escolhe o patrão, o tipo de serviço, as condições de
trabalho, as distâncias de casa e nem o salário que irá receber no
final do mês.
Trabalho escravo se configura também pelo trabalho degradante,
aliado ao cerceamento da liberdade. Isto nem sempre é visível, uma
vez que não se utilizam correntes para prender o homem ao tipo de
serviço, mas sim ameaças físicas, terrorismos psicológicos ou outras
formas de subserviências.
As
formas de abordar o trabalhador, os tipos de transportes, os
alojamentos, as situações de insalubridades, os saneamentos, as
alimentações, os maus-tratos, as violências e as mortes estão ai
estampadas para testemunhar o que acabamos de afirmar. Vejamos ao
menos alguns testemunhos:
1)
Pedro,
13 anos, piauiense como eu, meu xará, disse que perdeu a conta das
vezes em que passou frio, que foi ensopado pelas chuvas e trovoadas
amazônicas, debaixo de lona amarela que servia de casa durante os
dias da semana. 2. Luis, piauiense que nem eu, disse que
perdeu um dedo da mão quando a lâmina giratória da moto-serra desceu
sem aviso. “Me deram duas caixas de comprimidos: uma para
desinflamar e outra para tirar a dor e me mandaram embora”.
3. Carlos, como eu piauiense, disse que tremia por várias dias,
não de malaria ou de dengue, mas de desnutrição. 4. Paulo,
piauiense como eu, disse que só comia carne quando o boi morria.
5. Mateus, piauiense como eu, capturado em uma fazenda, disse
que usava a mesma água para beber, lavar roupa, tomar banho e
cozinhar: “a água parecia suco de abacaxi, de tão suja, grossa e
cheia de bicho”. 6. José, também piauiense como eu, por
ter denunciado a sua situação, foi agredido com uma faca. Disse
eles: “se não tivesse me defendido com a mão, o golpe tinha
pegado no pescoço”. “E não pude fazer mais nada, além disso”.
Disse ainda ele: “macaco sem rabo não pula de um galho para
outro”. 7. Seu Antonio, piauiense também como eu,
perguntado quanto o seu pseudopatrão pagou pelos acidentes, disse:
“um olho perdido - R$ 60,00; uma mão perdida - R$ 100,00”. E
assim por diante. Estranho é que o corpo com partes perdidas tem
preço, mas se a perda for total não vale nada. 8. Francisco,
piauiense como eu, não teve tempo de contar a sua história, pois
morreu em decorrência da exaustão no corte de cana. E tantas outras
histórias não documentadas.
Certamente todos que estamos aqui, conhecemos histórias, pessoas,
nomes, sobrenomes, situações que comprovam o que estamos dizendo.
Ninguém, de sã consciência, é capaz de desdizer estes dados que
estão disponíveis em todas as paginas escritas ou não escritas da
nossa história. As vozes destes depoimentos nos questionam e nos
interpelam profundamente a nós que estamos aqui, bem como aqueles
que aqui não vieram (nossos governantes) que, por missão, deviam
estar aqui. Não vamos voltar para nossas casas, oprimidos e
opressores, como se nada tivesse acontecido.
Vale
ainda ressaltar que a maioria dos casos de migração é motivada por
crises profundas: conflitos, guerras, fomes, doenças, instabilidades
políticas, desastres naturais, desertificações, pobrezas, problemas
econômicos, sociais, culturais, violências, prostituição,
alcoolismos, mortes... A migração nestes moldes, é uma viagem para a
pobreza, piora a desagregação familiar, a destruição das
comunidades, os conflitos, a fome, as guerras, as instabilidades
políticas, os crescimentos populacionais, a destruição do
ecossistema e esgotamento de áreas cultiváveis. As alterações
climáticas agravam a migração forçada e levam ao trabalho escravo.
Alguns estudos afirmam que, por causa das mudanças climáticas, a
migração poderá pular de 50 milhões em 2010 para cerca de 700
milhões em 2050. Segundo estudos confiáveis, na metade do atual
século milhões de pessoas poderão estar fugindo das mudanças
climáticas globais: mares que se elevam, de secas ou enchentes
devastadoras e de outros desastres naturais. Isto atingirá sempre o
mais jovem, o mais fraco, o mais pobre e o menor e, por tabela,
atingirá as mulheres, as crianças e os mais velhos.
Portanto, está dado o alarme. O sinal amarelo está aceso.
Caríssimos(as), para abreviar, por tudo isto, e por tudo mais,
vivemos situações e em situações de trabalho escravo; vivemos em
regimes de trabalhos escravos. Esta nossa romaria se inscreve neste
itinerário traçado por Deus que “desce para libertar o seu povo”,
como um divisor de águas: houve migração forçada, houve trabalho
escravo antes. Depois não! Por isso devemos gritar com todo o
pulmão: migração forçada, jamais! Trabalho escravo nunca jamais!
Que
Jesus Eucaristia seja nosso alimento e nossa força na luta por um
mundo novo no qual todos possam ser tratados com respeito e
dignidade. Jesus, pão vivo descido do céu, ajuda-nos a construir a
“terra sem males” que nos faz pregustar a alegria e a paz do reino
definitivo.
Basta
de trabalho escravo. Basta de migração forçada. É por isso que se
diz: migração forçada, jamais; trabalho escravo nunca mais!
Dom Pedro Brito Guimarães
Bispo de São Raimundo Nonato - Piauí
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