|
Mensagem ao povo de Deus sobre as Comunidades
Eclesiais de Base
Introdução
“As Comunidades Eclesiais de Base”, dizíamos em
1982, constituem “em nosso país, uma realidade que
expressa um dos traços mais dinâmicos da vida da
Igreja (...)” (Comunidades Eclesiais de Base na
Igreja do Brasil, CNBB, doc. 25,1). Após a
Conferência de Aparecida (2007) e o 12º
Intereclesial (Porto Velho-2009), queremos oferecer
a todos os nossos irmãos e irmãs uma mensagem de
animação, embora breve, para a caminhada de nossas
CEBs.
Queremos reafirmar que elas continuam sendo um
“sinal da vitalidade da Igreja” (RM 51). Os
discípulos e as discípulas de Cristo nelas se reúnem
para uma atenta escuta da Palavra de Deus, para a
busca de relações mais fraternas, para celebrar os
mistérios cristãos em sua vida e para assumir o
compromisso de transformação da sociedade. Além
disso, como afirma Medellín, as comunidades de base
são “o primeiro e fundamental núcleo eclesial (...),
célula inicial da estrutura eclesial e foco de
evangelização e, atualmente, fator primordial da
promoção humana (...)” (Medellín 15).
Por isso, “Como pastores, atentos à vida da Igreja
em nossa sociedade, queremos olhá-las com carinho,
estar à sua escuta e tentar descobrir através de sua
vida, tão intimamente ligada à história do povo no
qual elas estão inseridas, o caminho que se abre
diante delas para o futuro”. (CNBB 25,5)
Os desafios postos às CEBs hoje: a sociabilidade
básica no clima cultural contemporâneo
Com as grandes mudanças que estão acontecendo no
mundo inteiro e em nosso país, as CEBs enfrentam
hoje novos desafios: numa sociedade globalizada e
urbanizada, como viver em comunidade? Nascidas num
contexto ainda em grande parte rural, serão capazes
de se adaptar aos centros urbanos, que têm um ritmo
de vida diferente e são caracterizados por uma
realidade plural? Dentro desse contexto, há outro
desafio: como transmitir às novas gerações as
experiências e valores das gerações anteriores,
inclusive a fé e o modo de vivê-la? Só uma Igreja
com diferentes jeitos de viver a mesma Fé será capaz
de dialogar relevantemente com a sociedade
contemporânea.
O século XX foi, sem dúvida, o século da
globalização. Suas consequências para a vida
cotidiana são tantas que hoje se fala que o mundo
vive não mais uma época de mudanças, mas “uma
mudança de época, cujo nível mais profundo é o
cultural” (DAp 44). De fato, “a ciência e a técnica
quando colocadas exclusivamente a serviço do mercado
(...) criam uma nova visão da realidade” (DAp 45),
mas isso não significa um passo em direção ao
desenvolvimento integral proposto pela encíclica
Populorum progressio e reafirmado pelo Papa Bento
XVI em Caritas in Veritate, porque a lógica do
mercado corrói a estrutura de sociabilidade básica
que se expressa nas relações de tipo comunitário. À
medida que ele avança, expulsa as relações de
cooperação e solidariedade e introduz relações de
competição nas quais o mais forte é quem leva
vantagem.
Desta forma, é preciso valorizar as experiências de
sociabilidade básica: as relações fundadas na
gratuidade que se expressa na dinâmica de
oferecer-receber-retribuir. O cultivo da
reciprocidade tem como espaço primeiro aquele onde a
vizinhança territorial é importante para a vida
cotidiana, como em áreas rurais, bairros de
periferia e favelas. É a solidariedade entre
vizinhos – melhor dizendo, entre vizinhas – que
assegura o cuidado com crianças, idosos e doentes,
por exemplo. Não por acaso, esses espaços
periféricos favorecem o desenvolvimento de
associações de vizinhança e movimentos que
reivindicam melhorias de equipamento urbano, bem
como das próprias Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
São as relações de reciprocidade que, promovendo a
solidariedade que é a força dos pobres e pequenos,
permite que se diga que "gente simples, fazendo
coisas pequenas, em lugares pouco importantes,
consegue mudanças extraordinárias".
O percurso histórico das CEBs no Brasil
A experiência das CEBs não surgiu de um planejamento
prévio, mas de um impulso renovador, como um sopro
do Espírito, já presente na Igreja no Brasil. Esse
impulso renovador se manifesta de forma crescente
nos anos 50 e 60 do século 20. Na verdade, os tempos
se tornaram maduros para uma nova consciência
histórica e eclesial: primeiro, pela emergência de
um novo sujeito social na sociedade brasileira, o
sujeito popular, que ansiava à participação;
segundo, pela emergência de um novo sujeito
eclesial, portador de uma nova consciência na
Igreja. Ele ansiava participar ativa e
corresponsavelmente da vida e da missão da Igreja.
Esse sujeito provoca novas descobertas e conversões
pastorais (CNBB 25,7).
Nelas se revigoravam ou restauravam as relações de
reciprocidade, de modo a favorecer a reconstrução
das estruturas da vida cotidiana, do mundo da vida,
em um contexto social adverso. A interação entre a
CEB enquanto organismo eclesial e a comunidade local
de vizinhos é uma das grandes contribuições da
Igreja à conquista dos direitos de cidadania em
nosso País. Ao acolher pastoralmente a população
rural ou migrante em capelas e salões improvisados
nos quais elas se sentissem “em casa”, a Igreja lhes
ofereceu uma possibilidade de organizar-se
autonomamente, quando as empresas e os poderes
públicos só viam nela o potencial de mão-de-obra a
ser empregada no processo de industrialização.
A experiência dos Intereclesiais
Os Encontros Intereclesiais das CEBs são patrimônio
teológico e pastoral da Igreja no Brasil. Desde a
realização do primeiro, em 1975 (Vitória – ES),
reúnem diversas dioceses para troca de experiência e
reflexão teológica e pastoral acerca da caminhada
das CEBs. Foram doze encontros nacionais, diversos
encontros de preparação em várias instâncias
(paróquias, dioceses, regionais) e, desde a
realização do 8º Intereclesial ocorrido em Santa
Maria – RS (1992), são realizados seminários de
preparação e aprofundamento dos temas ligados ao
encontro.
Manifestação visível da eclesialidade das CEBs, os
Encontros Intereclesiais congregam bispos,
religiosos e religiosas, presbíteros, assessores e
assessoras, animadores e animadoras de comunidades,
bem como convidados de outras igrejas cristãs e
tradições religiosas. Neles se expressa a comunhão
entre os fiéis e seus pastores.
Espiritualidade e vivência eucarística
“O Concílio Vaticano II, eminentemente pastoral,
provocou um grande impacto na Igreja. Suas grandes
idéias-chaves trouxeram a fundamentação teológica
para a intuição, já sentida na prática, de que a
renovação pastoral deve se fazer a partir da
renovação da vida comunitária e de que a comunidade
deve se tornar instrumento de evangelização”. (CNBB
25,11)
A exigência do Vaticano II é de razão estritamente
teológica, de ordem trinitária. A essência íntima de
Deus não é a solidão, mas a comunhão de três divinas
Pessoas. A comunhão – koinonia, communio – constitui
a realidade e a categoria fundamental que permeia
todos os seres e que melhor traduz a presença do
Deus-Trindade no mundo. É a comunhão que faz a
Igreja ser “comunidade de fiéis”. Por isso, o
Vaticano II faz derivar a união do Povo de Deus da
unidade que vigora entre as três divinas Pessoas (LG
4).
A Trindade nos coloca, desde o início, no coração do
mistério de comunhão. O Papa João Paulo II, falando
aos bispos em Puebla, em 28 de janeiro de 1979,
proclamou: “Nosso Deus em seu mistério mais íntimo
não é uma solidão, mas uma família... e a essência
da família é o amor”. A comunhão e a comunidade
devem estar presentes em todas as manifestações
humanas e em todas as concretizações eclesiais.
Por isso mesmo, a Eucaristia está no centro da vida
de nossas comunidades de base. É o sacramento que
expressa comunhão e participação de todos e todas,
como numa grande família, ao redor da Mesa do Pai.
Há comunidades que recebem a comunhão eucarística
graças a presença do Santíssimo no local ou pelo
serviço de um ministro extraordinário da sagrada
comunhão. Como nossas CEBs, em sua maioria, “não têm
oportunidade de participar da Eucaristia dominical”,
por falta de ministros ordenados, “elas podem
alimentar seu já admirável espírito missionário
participando da ‘celebração dominical da Palavra’,
que faz presente o mistério pascal no amor que
congrega (cf. 1 Jo 3, 14), na Palavra acolhida (cf.
Jo 5, 24-25) e na oração comunitária (cf. Mt 18,20)”
(DAp 253).
A realidade das CEBs se expressa na liturgia e
também na diaconia e na profecia. A diaconia educa,
cura as feridas, multiplica e distribui o pão e
chama para a solidariedade e a comunhão. A profecia
anuncia o desígnio de Deus e denuncia os abusos, a
mentira, a injustiça, a exploração e exige a
conversão. Por isso, sofre perseguição, difamação,
morte.
Temos duas testemunhas recentes desse duplo
ministério dos discípulos e discípulas de Jesus
Cristo: Dra. Zilda Arns e Irmã Dorothy Stang. Há
muito conhecidas por nossas comunidades pobres pelo
Brasil afora, elas inspiraram a ação das CEBs. Elas
entregaram a vida e nos deixaram seu testemunho de
fé e amor aos pobres, fracos, desamparados e
discriminados.
Esta espiritualidade também possibilitou a produção
de uma rica manifestação artística em nossas
comunidades – músicas, poesias, pinturas, símbolos –
típicos da prática religiosa e cultural de nosso
povo, e que também são instrumentos de evangelização
e de missão.
Vivência e Anúncio da Palavra de Deus e o Testemunho
de fé
"A Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,
14). A acolhida da Palavra de Deus e a vivência
comunitária da fé são indissociáveis nas CEBs. A
Bíblia faz parte do dia-a-dia da comunidade, estando
presente nos grupos e pastorais, nas liturgias e na
formação, na reza e nas ações que visam superar as
desigualdades e injustiças da sociedade brasileira.
São espaços privilegiados de leitura bíblica nas
CEBs os círculos bíblicos e grupos de reflexão.
Neles o povo se coloca como sujeito eclesial, assume
seu lugar na comunidade e na sociedade. O
protagonismo dos leigos nas CEBs é expressão viva de
uma Igreja que se renova animada pelo Espírito
Santo, é também um sinal de que no discipulado estão
surgindo novos ministérios e serviços.
“O ministério da Palavra exige o ministério da
catequese a todos porque ‘fortalece a conversão
inicial e permite que os discípulos missionários
possam perseverar na vida cristã e na missão em meio
ao mundo que os desafia’” (DGAE 64; DAp 278c). A
vida em comunidade já é uma forma de catequese. Ela
predispõe para o aprofundamento da fé e da vida
cristã por meio do ministério da catequese e também
pelo testemunho fraterno de seus membros.
Solidariedade e serviço
Alimentadas pela Palavra de Deus e pela vivência de
comunhão, as CEBs promovem solidariedade e serviço.
Reunindo pessoas humildes, as CEBs ajudam a Igreja a
estar mais comprometida com a vida e o sofrimento
dos pobres, como fez Jesus. Elas manifestam, mais
claramente, que “o serviço dos pobres é medida
privilegiada, embora não exclusiva, do seguimento de
Cristo” (DP 1145).
Mais ainda, o surgimento das CEBs, junto com o
compromisso com os mais necessitados, ajudou a
Igreja a “descobrir o potencial evangelizador dos
pobres”, primeiro, porque interpelam a Igreja,
chamando-a à conversão; segundo, porque “realizam em
sua vida os valores evangélicos da solidariedade,
serviço, simplicidade e disponibilidade para acolher
o dom de Deus” (DP 1147). As vocações religiosas e
sacerdotais despertadas pelas CEBs sinalizam
vitalidade espiritual, comunhão eclesial e um novo
estímulo de consagração a Deus.
A formação dos discípulos missionários
Na sua experiência já amadurecida, as CEBs querem
ser Igreja como o Concílio Vaticano II desejou: uma
Igreja toda ministerial a serviço do Reino de Deus.
A formação do discípulo missionário começa dentro
delas pela experiência de um encontro feliz e alegre
com a pessoa de Jesus, sua vida e seu destino. Como
Jesus convocou discípulos e discípulas para estarem
com ele, do mesmo modo, ele convoca também hoje
discípulos e discípulas para estarem com ele e dele
aprenderem o amor ao Pai, a fidelidade ao Espírito e
o compromisso para a transformação do mundo em mundo
de irmãos e irmãs.
Por sua capacidade de cuidar da formação da própria
comunidade e de olhar, com compaixão, a realidade,
as CEBs podem e devem ser cada vez mais escolas que
ajudam “a formar cristãos comprometidos com sua fé;
discípulos e missionários do Senhor, como o
testemunha a entrega generosa, até derramar o
sangue, de muitos de seus membros” (DAp 178).
A participação nos movimentos sociais, de cidadania,
de defesa do meio ambiente em vista da construção do
Reino de Deus
No que diz respeito à relação das CEBs com a
dimensão sociopolítica da evangelização, o Sínodo
sobre A Justiça no Mundo, de 1971, já tinha afirmado
que “a ação pela justiça e a participação na
transformação do mundo nos aparecem claramente como
uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho,
isto é, da missão da Igreja pela redenção do gênero
humano e a libertação de toda situação de opressão”
(introd.). Em vista disso, a Igreja no Brasil exorta
as CEBs e demais comunidades eclesiais a se manterem
fiéis à própria fé, no conteúdo e nos métodos, na
busca da libertação plena, superando a tentação “de
reduzir a missão da Igreja às dimensões de um
projeto puramente temporal” (CNBB 25,64ss; Cf. EN
32).
Em relação à aproximação das CEBs com os movimentos
populares na luta pela justiça, o documento 25 da
CNBB afirmava que elas “não podem arrogar-se o
monopólio do Reino de Deus”. Na verdade, a CEB deve
tomar consciência de que, “como Igreja, é sinal e
instrumento do Reino, é aquela pequena porção do
povo de Deus onde a Palavra de Deus é acolhida e
celebrada nos sacramentos ... sobretudo na
Eucaristia” (70ss). As CEBs buscam, sim, a
“colaboração fraterna com pessoas e grupos que lutam
pelos mesmos valores” (73).
As CEBs têm despertado em muitos dos seus membros a
espiritualidade do cuidado para com a vida dos seres
humanos, de todas as formas de vida e a vida do
Planeta Terra. A espiritualidade do cuidado tem
motivado o surgimento de gestos e atitudes éticas de
respeito, de veneração, de ternura, de cooperação
solidária, de parceria, que promovam a inclusão de
todos e de tudo no mistério da vida.
As CEBs promovem a participação ativa de seus
membros nos grupos de economia popular solidária,
resgatando o sentido originário da economia como a
atividade destinada a garantir a base material da
vida pessoal, familiar, social e espiritual.
Contribui assim para que o trabalho humano, além de
ser o lugar de edificação da dignidade humana e
promoção da justiça social, seja também responsável
pela promoção do desenvolvimento sustentável.
Espírito de abertura ecumênica e diálogo
interreligioso
Uma das dimensões da espiritualidade cultivadas
pelas CEBs é a do diálogo ecumênico e interreligioso,
que se dá pela abertura ao mundo do outro,
promovendo a unidade na diversidade e buscando as
semelhanças na diferença. Esta espiritualidade
dialogal tem sido assumida pelas CEBs como uma
missão de fraternidade cristã, numa atitude de
profundo respeito às demais manifestações
religiosas, em busca da comunhão universal. Essa
espiritualidade nasce do desejo expresso por Jesus:
"Que todos sejam um!" (Jo 17,21)
Formação de rede de comunidades
Os membros das CEBs são discípulos de Cristo e
ajudam a formar outras comunidades. Em meio a
grandes extensões geográficas e populacionais, a
comunidade eclesial de base requer que as relações
sejam de fraternidade, partilha de vida, de bens e
da própria experiência de fé. Ela deve provocar um
encontro permanente com a Palavra de Deus e celebrar
na liturgia, na alegria e na festa, a salvação que
Jesus Cristo nos trouxe.
A experiência da fé e da participação faz amadurecer
a comunidade eclesial de base, e lhe confere
características próprias de modo a levá-la a um
relacionamento fraterno de igualdade com as demais
comunidades pertencentes à mesma paróquia. Com isso,
a matriz-paroquial ganha maior relevância pastoral
na medida em que passa a exercer a função de
articuladora das comunidades.
Exortamos que a paróquia procure se transformar em
“rede de comunidades e grupos, capazes de se
articular conseguindo que seus membros se sintam
realmente discípulos missionários de Jesus Cristo em
comunhão” (DAp 172), tendo por modelo as primeiras
comunidades cristãs retratadas nos Atos dos
Apóstolos (At 2 e 4). Assim, a paróquia será mais
viva, junto com suas comunidades, coordenadas por
leigos ou leigas, por diáconos permanentes, animadas
por religiosos e religiosas, e que tenham no
Conselho Pastoral Paroquial, presidido pelo pároco,
seu principal articulador pastoral.
Conclusão
Em comunhão com outras células vivas da Igreja,
comunidades de discípulos e discípulas geradas pelo
encontro com Jesus Cristo, Palavra feito carne (cf.
Jo 1,14), como são os movimentos, as novas
comunidades, as pequenas comunidades, que integram a
rede de comunidades que a paróquia é chamada a ser,
reafirmamos aqui o que está escrito no Documento 25
da CNBB: “Ao concluir estas reflexões, desejamos
agradecer a Deus pelo dom que as CEBs são para a
vida da Igreja no Brasil, pela união existente entre
os nossos irmãos e seus pastores, e pela esperança
de que este novo modo de ser Igreja vá se tornando
sempre mais fermento de renovação em nossa
sociedade”. (94)
Brasília-DF, 12 de maio de 2010
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Mensagem dos Bispos do Brasil sobre a Palavra de
Deus e a Animação Bíblica de toda a Pastoral
Dias virão em que o povo sentirá fome da Palavra
(cf. Am 8,11)
Na 48ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil, aprofundamos o tema da Palavra de
Deus na Igreja. Enquanto aguardamos com muito
carinho a Exortação Apostólica pós-sinodal do Papa
Bento XVI, orientados pela mensagem do Sínodo, com
as ricas contribuições de toda a Igreja sobre este
tema, convidamos todas as comunidades a acolher este
grande dom e a preparar o ânimo para uma recepção
mais viva da Palavra de Deus. Assim, a Igreja no
Brasil poderá ser, nesta mudança de época,
anunciadora corajosa das riquezas da Palavra em
estado permanente de missão em toda a sua ação
evangelizadora.
No Prólogo do evangelho de São João, encontramos o
anúncio que ilumina a vida do mundo inteiro: “No
princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de
Deus, e a Palavra era Deus... e a Palavra se fez
carne” (Jo 1, 1.14). A Palavra se torna um de nós e
pode ser vista, tem um nome e um rosto: é Jesus
Cristo. Depois de percorrer as estradas da
Palestina, encontrando todo tipo de pessoas e
fazendo o bem, a Palavra feita carne se manifesta de
forma mais eminente no Mistério Pascal. É o amor do
Pai que, na glorificação do Filho, chega até nós
pela força do Espírito.
Do lado aberto de Jesus nasce a Igreja, que, guiada
pelo Espírito, começa a colocar por escrito a
Palavra revelada, que não se esgota nos textos
sagrados, mas continua no rio de vida que é a
Tradição. Isso aconteceu, também, no Antigo
Testamento quando a experiência da salvação deu
origem, já no povo de Israel, aos textos sagrados. A
Palavra, portanto, germina na vida da Igreja e é
autenticamente interpretada por meio do Magistério
do sucessor de Pedro e dos bispos em comunhão com
ele. Esta Palavra, que é vida, continua viva nas
comunidades cristãs.
Exortamos os discípulos e as discípulas de Jesus do
nosso tempo a se deixarem alcançar pela palavra de
seu Mestre. Como aos primeiros, lá na Palestina, Ele
lhes dirigiu o olhar e a palavra (cf. Mt 4,18-22).
Eles, ao ouvirem sua palavra, acolheram sua Pessoa:
seguiram-no. Foi um começo. Muitas vezes, depois,
tiveram que renovar os motivos para o seguimento.
Naquelas situações, a Palavra do Senhor não lhes
faltava: escutavam-no. Deixavam-se ensinar por Ele.
E os discípulos amadureciam no seguimento e nos seus
vínculos pessoais com o Senhor. Esta palavra
continua viva na história e chegou até nós, na terra
de Santa Cruz.
Louvemos a Deus por tudo o que se fez e se faz em
nosso Brasil por meio do trabalho evangelizador com
a Bíblia, desde o “movimento bíblico” já antes do
Concílio Vaticano II, e com ele, e a partir dele,
com a rica “pastoral bíblica”. A nossa Igreja no
Brasil tornou-se mais atenta em acolher a Revelação
do Senhor, mais animada em encontrar-se com a
Palavra viva, que é Jesus Cristo, e mais profética e
misericordiosa em servir a todos, especialmente aos
mais fracos.
Deus suscita em nosso povo uma grande fome e sede da
Palavra, uma grande procura e desejo de conhecer,
viver e anunciar a mensagem da Sagrada Escritura.
Este encantamento pela Palavra é um apelo para que,
em nossas dioceses, paróquias e comunidades se
ofereça e se facilite o acesso à Bíblia, ao estudo
bíblico e a vivência da mensagem revelada.
Em continuidade com tudo que já se realiza, somos
convidados a dar um novo passo. Trata-se de
compreender que a Palavra de Deus é a alma de toda a
ação evangelizadora da Igreja. Propõe-se uma
verdadeira “Animação Bíblica da Pastoral”. Assim a
Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura
suscita, forma e acompanha a vocação e a missão de
cada discípulo missionário de Jesus Cristo e orienta
as ações organizadas da Igreja. Dessa forma, além de
ser “alma da teologia” (DV 24), a Palavra de Deus
torna-se também a “alma da ação evangelizadora da
Igreja” (DP 372; DAp 248).
Quando falamos da “Animação Bíblica da Pastoral”,
propomos conhecer e assimilar mais a Revelação de
Deus, em ter, mediante sua Palavra, um encontro
pessoal e comunitário com o Senhor e sermos
corajosos missionários do Reino de Deus. Por isso a
“Animação Bíblica da Pastoral” deve tornar-se um
verdadeiro aprendizado, por meio de um caminho de
conhecimento e interpretação da Sagrada Escritura,
caminho de comunhão e oração com o Senhor e caminho
de evangelização e anúncio da Palavra de Deus,
esperança para o nosso mundo (cf. DAp 248).
É hora, pois, de uma formação bíblica mais intensa,
profunda, sistemática e corajosa; de um contínuo e
fascinante contato com a Palavra de Deus, que é
Jesus Cristo; de uma forte e vibrante ação
evangelizadora a partir da Palavra de Deus.
Com a Bíblia na mão, a Palavra de Deus no coração e
com os pés na missão, somos convocados à prática da
Leitura Orante. Feita com todo empenho em nível
pessoal e comunitário, ela vai nos educar na fé
proporcionando uma catequese bíblica, que forma
discípulos apaixonados por Jesus Cristo. Ela nos
leva a celebrar a esperança na liturgia, que dispõe
para plena comunhão com Deus, que se realiza na
Eucaristia. Ela, enfim, fortalece-nos na missão de
anunciar a Palavra a todos os povos por meio de uma
caridade criativa. Quando pessoas e comunidades são
transformadas pela Palavra, multiplicam-se na Igreja
e na sociedade frutos de amor, solidariedade,
justiça e paz.
Convidamos todas as Igrejas particulares, com suas
pastorais, movimentos, organismos, associações,
novas comunidades, círculos bíblicos, grupos de
família e outras expressões comunitárias, a fazer um
verdadeiro mutirão de Leitura Orante em seus
diversos métodos, entre os quais se destaca a Lectio
Divina.
Deixemo-nos cativar pela Palavra. Ela faz arder
nossos corações, abrir nossas mãos e torna velozes
os nossos pés na missão. Maria, modelo perfeito de
acolhida e de seguimento da Palavra nos acompanhe na
escuta orante e na dedicação generosa ao anúncio da
Palavra a partir do testemunho da nossa vida.
Brasília, 12 de maio de 2010
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Declaração sobre o Momento Político Nacional
 
Nós, Bispos Católicos do Brasil, reunidos em
Brasília, de 4 a 13 de maio de 2010, para a 48ª
Assembléia Geral da CNBB, temos diante de nós a
realidade do Povo Brasileiro, de cujas lutas e
esperanças participamos. Os 50 anos da inauguração
de Brasília e as eleições gerais do próximo mês de
outubro nos proporcionam a oportunidade de refletir
sobre a trajetória do País.
A realização da nossa Assembléia Geral em Brasília,
no ano do jubileu de ouro da cidade e da
Arquidiocese, quer expressar o apreço pelo que
significou para a nação a construção da Capital do
País em pleno planalto central.
O Jubileu de Ouro de Brasília, no entanto, precisa
se transformar em oportunidade para que a Capital
recupere o seu simbolismo original e se torne de
fato fonte de inspiração para os sonhos de um País
justo, integrado, desenvolvido e ecologicamente
sustentável, que todos queremos. “O desenvolvimento
é impossível sem homens retos, sem operadores
econômicos e homens políticos que sintam
intensamente em suas consciências o apelo do bem
comum. São necessárias tanto a preparação
profissional como a coerência moral” (Bento XVI,
Caritas in Veritate, 71).
A celebração do Congresso Eucarístico Nacional em
Brasília quer, igualmente, ser sinal deste anseio de
País justo e fraterno, para cuja realização a Igreja
Católica procura dar sua contribuição pelo
testemunho dos valores humanos e cristãos que o
Evangelho nos ensina. Seu lema “Fica conosco,
Senhor” atesta a importância da presença do Deus da
vida e da partilha em todos os momentos, também
naqueles do exercício da cidadania.
O Brasil está vivendo um momento importante, por seu
crescimento interno e pelo lugar de destaque que vem
merecendo no cenário internacional. Isso aumenta sua
responsabilidade no relacionamento com as outras
nações e na superação progressiva de suas
desigualdades sociais, produzidas pela iníqua
distribuição da renda, que ainda persiste.
Preocupam-nos os grandes projetos, sobretudo na
Amazônia, sem levar devidamente em conta suas
consequências sociais e ambientais. Permanece o
desafio de uma autêntica reforma agrária acompanhada
de política agrícola que contemple especialmente os
pequenos produtores rurais, como fator de equilíbrio
social.
A Igreja, comprometida de modo inequívoco com a
defesa da dignidade e dos Direitos Humanos, apóia as
iniciativas que procuram garanti-los para todos.
Todavia, denuncia distorções inaceitáveis presentes
em alguns itens do PNDH-3.
Destacamos a importância do projeto de lei
denominado “Ficha Limpa”, de iniciativa popular, em
votação nestes dias no Congresso Nacional, como
exemplo de participação popular para o aprimoramento
da democracia, como já ocorrera com a aprovação da
Lei 9840, contra a corrupção eleitoral, cuja
aplicação requer contínua e atenta vigilância de
todos, para que não continue a praga da compra e
venda de votos. Esperamos que seja um instrumento a
mais para sanar o grave problema da corrupção na
vida política brasileira.
Permanecem oportunas as palavras de João Paulo II:
“A Igreja encara com simpatia o sistema da
Democracia, enquanto assegura a participação dos
cidadãos nas opções políticas e garante aos
governados a possibilidade de escolher e controlar
os próprios governantes (...) ela não pode,
portanto, favorecer a formação de grupos restritos
de dirigentes que usurpam o poder do Estado a favor
dos seus interesses particulares ou de objetivos
ideológicos” (Centesimus Annus, 46).
Urge uma profunda reforma política, iluminada por
critérios éticos, com a participação das diversas
instâncias da sociedade civil organizada,
fortalecendo a democracia direta com a indispensável
regulamentação do Art. 14 da Constituição Federal,
relativo a plebiscito, referendo e iniciativa
popular de lei. A Reforma Política “precisa atingir
o âmago da estrutura do poder e a forma de
exercê-lo, tendo como critério básico inspirador, a
participação popular. Trata-se de reaproximar o
poder e colocá-lo ao alcance da influência viável e
eficaz da cidadania” (Por uma Reforma do Estado com
Participação Democrática, Documentos da CNBB 91,
101).
A campanha eleitoral é oportunidade para empenho de
todos na reflexão sobre o que precisa ser levado
adiante com responsabilidade e o que deve ser
modificado, em vista de um Projeto Nacional com
participação popular. Por isso, incentivamos a que
todos participem e expressem, através do voto ético,
esclarecido e consciente, a sua cidadania nas
próximas eleições, superando possíveis desencantos
com a política, procurando eleger pessoas
comprometidas com o respeito incondicional à vida, à
família, à liberdade religiosa e à dignidade humana.
Em particular, encorajamos os leigos e as leigas da
nossa Igreja a que assumam ativamente seu papel de
cidadãos colaborando na construção de um País melhor
para todos.
Confiando na intercessão de Nossa Senhora Aparecida,
invocamos as bênçãos de Deus para todo o Povo
Brasileiro.
Brasília, 11 de maio de 2010
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Carta dos Bispos aos Presbíteros
 
“Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,
15)
Nós, Bispos do Brasil, reunidos em Brasília, na 48ª
Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), queremos saudar a todos os
Presbíteros de nossas Dioceses e Eparquia, que mais
diretamente compartilham conosco o amor a Jesus
Cristo e à Igreja na tarefa de evangelizar o povo de
Deus.
Agradecemos a total dedicação e amor a Jesus Cristo
e à missão da sua Igreja, na qual vocês vivem a
vocação e dão seu testemunho sacerdotal. Conhecemos
de perto seus sacrifícios que, por vezes, alcançam o
heroísmo na busca cotidiana de fidelidade à missão
evangelizadora, movidos pelo ardor missionário para
animar comunidades e dialogar com os mais diversos
ambientes.
Caminhamos para o final do Ano Sacerdotal, cujo tema
é “Fidelidade de Cristo, fidelidade do Sacerdote”
que está nos trazendo abundantes graças e uma
renovada consciência da identidade dos Sacerdotes,
como anunciadores da Palavra, dispensadores da graça
e animadores da caridade, a serviço dos irmãos e
irmãs. Vocês renovaram conosco, em diversos
momentos, a disponibilidade em servir o povo de Deus
em suas necessidades mais profundas, com especial
atenção aos mais pobres, aos jovens e aos doentes.
Por outro lado, comportamentos abusivos de alguns
irmãos Presbíteros atingiram recentemente a
credibilidade dos Sacerdotes e a grandeza do dom que
nos foi confiado. Amargura e sofrimento, confusão e,
mesmo indignação, invadiram o íntimo de muitos
cristãos e das pessoas que amam a justiça, a verdade
e a coerência de vida. Com humildade, reconhecemos
que estamos em tempo de purificação, recordando que,
diante do pecado, nos são dados como remédios a
conversão, o perdão e a reparação às vítimas; diante
do crime, as penalidades da lei civil e canônica; e
diante de patologias, adequadas terapias.
Essas circunstâncias e acontecimentos são um apelo
para nós, Bispos, e vocês, Presbíteros, vivermos de
maneira profunda e integral nossa configuração com
Jesus Cristo, o Bom Pastor, para que sejam mais
facilmente reconhecíveis os traços de sua presença
em nosso ser e em nosso agir cotidiano,
especialmente porque agimos in persona Christi
Capitis (PDV 12) ao cumprir as funções de mestres da
Palavra, ministros dos Sacramentos, guias e pastores
das comunidades. Um renovado empenho na busca da
santidade poderá reavivar em nós e nos agentes de
pastoral o entusiasmo para anunciar, testemunhar e
celebrar Jesus Cristo. De fato, somente nele se
encontram o significado da vida, a alegria e a paz,
que não esmorecem, a esperança que não desilude e a
caridade que aquece os corações.
O contato diuturno e direto com o povo de Deus faz
crescer a integração da vida e a partilha solidária
com as comunidades que lhes são confiadas entre mil
desafios, fazendo-se tudo para todos para conquistar
todos para Cristo, na labuta cotidiana.
Queremos reafirmar nossa satisfação e confiança pela
multidão de Presbíteros que, identificados com
Cristo, compartilham as alegrias e as esperanças, as
tristezas e as angústias das comunidades que lhes
são confiadas (cf. GS 1). Busquem sempre construir a
comunhão fraterna, a exemplo das primeiras
comunidades, nas quais “todos eram perseverantes em
ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão
fraterna, na fração do pão e nas orações. (...)
Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e
colocavam tudo em comum” (At 2, 42-45).
Agradecemos as obras de caridade que vocês realizam,
com significativa participação de leigos, para
enfrentar carências e problemas concretos de suas
comunidades. Admiramos os esforços para que todo o
povo cresça na consciência de sua dignidade de
filhos de Deus e de sua cidadania, em busca de uma
libertação plena da pobreza e da fome, da exclusão
social e das desigualdades.
Pedimos que zelem pela comunhão eclesial,
alimentando-a com a celebração cotidiana da
Eucaristia, com a oração fiel e generosa, de modo
especial a Liturgia das Horas, com a busca frequente
do Sacramento da Penitência e a orientação
espiritual, com um estilo de vida sóbrio, que tome
distância dos apelos do consumismo, da cultura da
banalidade, da invasão do secularismo. Recomendamos,
também, que tenham um zelo especial na administração
dos bens que lhes são confiados, destinados,
sobretudo, para o serviço dos mais pobres.
Sobre todos vocês, estimados filhos e irmãos,
invocamos a proteção de São João Maria Vianney e da
Virgem Aparecida, Mãe dos Sacerdotes, para que Ela
os console e fortaleça. Pedimos que Deus os abençoe
e renove cada dia, em seus corações, as razões para
viverem com entusiasmo e alegria sua total dedicação
a Cristo e à Igreja.
Brasília, 11 de maio de 2010
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB
Fonte: CNBB |