|
Sendo cristão católico também sou grato e D. Demétrio e ao
Pe. Comblin.
Viva sempre a igreja dos pobres!
Agnaldo Rocha
DESMONTE DE UMA FALÁCIA
D.
Demétrio Valentini
A questão do aborto está sendo instrumentalizada para fins
eleitorais. Esta situação precisa ser esclarecida e
denunciada.
Está sendo usada uma questão que merece toda a atenção e
isenção de ânimo para ser bem situada e assumida com
responsabilidade, e que não pode ficar exposta a manobras
eleitorais, amparadas em sofismas enganadores.
Nesta campanha eleitoral está havendo uma dupla falácia, que
precisa ser desmontada.
Em
primeiro lugar, se invoca a autoridade da CNBB para posições
que não são da entidade, nem contam com o apoio dela, mas se
apresentam como se fossem manifestações oficiais da CNBB.
Em segundo lugar, se invoca uma causa de valor indiscutível
e fundamental, como é a questão da vida, e se faz desta
causa um instrumento para acusar de abortistas os
adversários políticos, que assim passam a ser condenados
como se estivessem contra a vida e a favor do aborto.
Concretamente, para deixar mais clara a falácia, e para
urgir o seu desmonte:
A Presidência do Regional Sul 1 da CNBB incorreu, no mínimo,
em sério equívoco quando apoiou a manifestação de comissões
diocesanas, que sinalizavam claramente que não era para
votar nos candidatos do PT, em especial na candidata Dilma.
Ora, os Bispos do Regional já tinham manifestado
oficialmente sua posição diante do processo eleitoral. Por
que a Presidência do Regional precisava dar apoio a um
documento cujo teor evidentemente não correspondia à
tradição de imparcialidade da CNBB? Esta atitude da
Presidência do Regional Sul 1 compromete a credibilidade da
CNBB, se não contar com urgente esclarecimento, que não foi
feito ainda, alertando sobre o uso eleitoral que está sendo
feito deste documento assinado pelos três bispos da
presidência do Regional.
Esta falácia ainda está produzindo conseqüências. Pois no
próprio dia das eleições foram distribuídos nas igrejas, ao
arrepio da Lei Eleitoral, milhares de folhetos com a nota do
Regional Sul 1, como se fosse um texto patrocinado pela CNBB
Nacional. E enquanto este equívoco não for desfeito,
infelizmente a declaração da Presidência do Regional Sul 1
da CNBB continua à disposição da volúpia desonesta de quem a
está explorando eleitoralmente. Prova deste fato lamentável
é a fartura como está sendo impressa e distribuída.
Diante da gravidade deste fato, é bem vindo um esclarecedor
pronunciamento da Presidência Nacional da CNBB, que honrará
a tradição de prudência e de imparcialidade da instituição.
A outra falácia é mais sutil, e mais perversa. Consiste em
arvorar-se em defensores da vida, para acusar de abortistas
os adversários políticos, para assim impugná-los como
candidatos, alegando que não podem receber o voto dos
católicos.
Usam de artifício, para fazerem de uma causa justa o
pretexto de propaganda política contra seus adversários, e o
que é pior, invocando para isto a fé cristã e a Igreja
Católica.
Mas esta falácia não pára aí. Existe nela uma clara posição
ideológica, traduzida em opção política reacionária. Nunca
relacionam o aborto com as políticas sociais que precisam
ser empreendidas em favor da vida.
Votam, sem constrangimento, no sistema que produz a morte, e
se declaram em favor da vida.
Em nome da fé, julgam-se no direito de condenar todos os que
discordam de suas opções políticas. Pretendem revestir de
honestidade, uma manobra que não consegue esconder seu
intento eleitoral.
Diante desta situação, são importantes, e necessários, os
esclarecimentos. Mais importante ainda é a vigilância do
eleitor, que tem todo o direito de saber das coisas, também
aquelas tramadas com astúcia e malícia.
CARTA ABERTA A DOM DEMETRIO
Querido dom Demétrio
Quero publicamente agradecer-lhe as suas palavras
esclarecedoras sobre a manipulação da religião católica no
final da campanha eleitoral pela difusão de uma mensagem dos
três bispos da comissão representativa do regional Sul I da
CNBB condenando a candidata do atual governo e proibindo que
os católicos votem nela. Graças ao senhor, sabemos que essa
divulgação do documento da diretoria de Sul 1 não foi
expressão da vontade da CNBB, mas contraria a decisão tomada
pela CNBB na sua ultima assembléia geral, já que esta tinha
decidido que os bispos não iam intervir nas eleições.
Sabemos agora que o documento dos bispos da diretoria do
regional Sul 2 foi divulgado no final de agosto, e durante
quase um mês permaneceu ignorado pela imensa maioria do povo
brasileiro. Agora, dois dias antes das eleições, um grupo a
serviço da campanha eleitoral de um candidato, numa manobra
de evidente e suja manipulação, divulgou com abundantes
recursos e muito barulho esse documento, criando uma
tremenda confusão em muitos eleitores. Pela maneira como
esse documento foi apresentado, comentado e divulgado,
dava-se a entender que o episcopado brasileiro proibia que
os católicos votasse nos candidatos do PT e, sobretudo na
sua candidata para a presidência. Dois dias antes das
eleições os acusados já não podiam mais reagir, apresentar
uma defesa ou uma explicação. Aos olhos do público a Igreja
estava dando o golpe que sempre se teme na véspera das
eleições, quando se divulga um suposto escândalo de um
candidato. Era um golpe sujo por parte dos manipuladores, já
que dava a impressão de que o golpe vinha dessa feita da
própria Igreja.
Se os bispos que assinaram o documento de agosto, não
protestam contra a manipulação que se fez do seu documento,
serão cúmplices da manipulação e aos olhos do público serão
vistos como cabos eleitorais.
Se a CNBB não se pronuncia publicamente com muita clareza
sobre essa manipulação do documento por grupos políticos sem
escrúpulos, será cúmplice de que dezenas de milhões de
católicos irão agora, no segundo turno votar pensando que
estão desobedecendo aos bispos. Seria uma primeira
experiência de desobediência coletiva imensa, um precedente
muito perigoso. Além disso, certamente afetará a
credibilidade da Igreja Católica na sociedade civil, o que
não gostaríamos de ver nesta época em que ela já está
perdendo tantos fiéis.
Se o episcopado católico deixa a impressão de que a
divulgação desse documento nessa circunstância representa a
voz da Igreja com relação às eleições deste ano, muitos vão
entender que isso significa uma intervenção dos bispos
católicos para defender o candidato das elites paulistanas
contra a candidata dos pobres. Os pobres têm muita
sensibilidade e sentem muito bem o que há na consciência
dessas elites. Sabem muito bem quem está com eles e quem
está contra eles. Vão achar que a questão do aborto é apenas
um pretexto que esconde uma questão social, o desprezo das
elites, sobretudo de São Paulo pela massa dos pobres deste
país. Milhões de pobres votaram e vão votar na candidata do
governo porque a sua vida mudou. Por primeira vez na
história do país viram que um governo se interessava
realmente por eles e não somente por palavras. Não foi
somente uma melhoria material, mas antes de tudo o acesso a
um sentimento de dignidade. “Por primeira vez um governo
percebeu que nós existimos”. Isso é o que podemos ouvir da
boca dos pobres todos os dias. Um povo que tinha vergonha de
ser pobre descobriu a dignidade. Por isso o voto dos pobres,
este ano, é um ato de dignidade. As elites não podem
entender isso. Mas quem está no meio do povo, entende.
Os bispos podem lembrar-se de que a Igreja é na Europa o que
é, porque durante mais de 100 anos os bispos tomaram sempre
posição contra os candidatos dos pobres, dos operários.
Sempre estavam ao lado dos ricos sob os mais diversos
pretextos. E no fim aconteceu o que podemos ver. Abandonaram
a Igreja. Cuidado! Que não aconteça a mesma coisa por aqui!
Os pobres sabem, são conscientes e sentem muito bem quando
são humilhados. Não esperavam uma humilhação por parte da
Igreja. Por isso, é urgente falar para eles.
Uma declaração clara da CNBB deve tranqüilizar a consciência
dos pobres deste país. Sei muito bem que essa divulgação do
documento na forma como foi feita, não representa a vontade
dos bispos do regional Sul 1 e muito menos a vontade de
todos os bispos do Brasil. Mas a maioria dos cidadãos não o
sabe e fica perturbados ou indignados por essa propaganda
que houve.
Não quero julgar o famoso documento. Com certeza os
redatores agiram de acordo com a sua consciência. Mas não
posso deixar de pensar que essa manipulação política que foi
a divulgação do seu documento na véspera das eleições, dava
a impressão de que estavam reduzindo o seu ministério à
função de cabo eleitoral. O bispo não foi ordenado para ser
cabo eleitoral. Se não houver um esclarecimento público,
ficará a imagem de uma igreja conivente com as manobras
espúrias
Dom Demétrio, o senhor fez jus à sua fama de homem leal,
aberto, corajoso e comprometido com os pobres e os leigos
deste país. Por isso, o senhor merece toda a gratidão dos
católicos que querem uma Igreja clara, limpa, aberta,
dialogante. Demonizar a candidata do governo como se fez,
baseando-se em declarações que não foram claras, é uma
atitude preconceituosa totalmente anti evangélica. Queremos
continuar confiando nos nossos bispos e por isso aguardamos
palavras claras.
Obrigado, dom Demétrio.
José Comblin, padre e pecador.
5
de outubro de 2010
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- |