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     19/04/2010
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 TENHO SEDE DE ÍNDIOS

 
 

      

Amado, amada de Deus, tenho sede de índios

Olhando o calendário civil do dia de hoje, me deparei com um dia pouco conhecido e pouco comemorado entre nós: hoje é o dia do índio. Até porque temos pouco a comemorar. O dia do índio foi criado por Getúlio Vargas, em 1943. Mas como diz uma famosa canção brasileira: “os índios hoje só tem o dia dezenove de abril”. Nada mais, nada menos. Por isso esta minha sede: tenho sede de índios.

A presença visual do índio foi arrancada, à força, do meio de nós. Muita gente hoje nunca viu um índio, não sabe a sua cor, como vive, o que pensa, como se veste, como crê... Ficou pouco, muito pouco para o muito o que eles representam para a nossa cultura.

Quando os portugueses, aqui desembarcaram, imagine, amado, amado de Deus, a surpresa aos ver os índios com os trajes em que nasceram. Imagine também a surpresa dos índios ao verem pela primeira vez um branco vestido de europeu... Os historiadores dizem que foi uma cena apocalíptica, típica dos filmes de suspense e de terror.

Você sabe, amado, amada de Deus, o que ficou como herança dos nossos índios? Você sabe quais são as heranças indígenas no nosso dia-a-dia? São muitas, muito mais do que imaginamos, difíceis de ser enumeradas uma a uma. Mas as principais heranças culturais indígenas, no campo da alimentação, são: mandioca, milho, guaraná, pamonha, canjica, mel de abelha, tapioca, beiju, mingau, pirão...; nos costumes: música, dança, dormir na rede, plantar mandioca e milho, tomar banho diário, pescar, caçar...; nos objetos: rede, casa de palha e de taipa, canoa, armadilhas para caça e pesca, pote, cerâmica, bolsas, cestos, balaio, peneira de palha, de cipó e de fibra...; no vocabulário: Piauí, caju, abacaxi, goiaba, tatu, capim, cipó, mandacaru, Iracema, Jurema, Indiara...Isto sem contar as crenças religiosas.

O índio não desmata, não queima, não polui e nem destrói a natureza. A imagem que os portugueses criaram dos índios era a de homem que caça sem cães, pesca sem anzóis e planta sem enxada. Uma coisa eles tem muito a nos ensinar: viver em harmonia com o meio ambiente. Outros elementos a ser considerados: o conceito de família, de grupos, de tribo, de aldeia, de associação, de senso comunitário...

Se você quiser conferir tudo isto e muito mais o que estou lhe dizendo, amado, amada de Deus, faça uma visita ao Museu do Homem Americano e aos sítios arqueológicos entorno da Serra da Capivara. Lá você verá o quanto era rica e variada a cultura indígenas, deixada de presente e de herança para as gerações futuras. E faça o seu exame de consciência nestes termos: como foi possível matar todo um povo, extirpar suas culturas, esquecer suas verdades e seu valores? Se fizeram com eles, o que não farão conosco?

 

Por Dom Pedro Brito Guimarães

 

 
 

DOM PEDRO BRITO GUIMARÃES

BISPO DIOCESANO

 

 

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